Maria da Redenção Cardoso de Matos Fortuna

Indique como conheceu CÁRMEN ANTUNES DE MATOS FORTUNA (Carmita): datas, lugares, circunstâncias?
Sou sobrinha, afilhada e recordo-me dela, ligada a acontecimentos tais como: chegada dos filhos, Graça, Carlos, Cremilde e Fernando. Já existiam o Evaristo e a Francelina, mas esses, não me marcaram, pois, chegaram, antes de eu ter consciência das minhas memórias. Assim, a minha madrinha, e a sua percepção como tal, está a par, com a sua vocação de: ser mãe de crianças abandonadas.
 
É seu familiar e em que grau? 
Sou sobrinha e afilhada.
 
Foi sua conhecida? 
Fui das sobrinhas, a que mais conviveu, talvez pela idade com a minha tia. Estava sempre, que podia, em sua casa. Acompanhei-a por isso, em muitas acções sociais: visitar doentes cancerosos, levar bens alimentares a lares carenciados e recordo-me que a minha tia dava, do que tinha necessidade e não do que lhe sobrava, pois era uma mãe pobre, de 6 filhos.
 
Que outro tipo de relacionamento manteve com ela?
A minha madrinha contava sempre comigo, assim começámos, “Os Vagabundos da Montanha”. Éramos muitos primos e tios, todos com nome de bicho, com hino (feito pelo Tio “Tóino” – Dr. António de Matos Fortuna), estatutos e sede. Reuníamos aos domingos, onde fazíamos a leitura do jornal, elaborados por nós e cujas crónicas tinham de ser irónicas. Depois, seguia-se, um momento, de leitura, desde os evangelhos, até poemas de Sebastião da Gama. Lembrava-nos, que muitas coisas, só mais tarde, iríamos entender, o que nos queria transmitir. Também tínhamos, um mealheiro, onde púnhamos as nossas renúncias e com esse dinheiro, íamos comprar alimentos, para dar, aos mais necessitados. No Verão, íamos até à Serra da Estrela, onde a par com o amor à Natureza, nos ensinava, o amor às pequenas coisas: uma flor, um riacho e em tudo isso, vermos a presença de Deus. Aliás, Deus, sempre foi uma Presença constante em tudo. Começava-se e acabava-se o dia e as reuniões, com orações. Ensinou-nos a falar com Ele, como a um Amigo, como a Alguém muito, muito próximo; tão próximo, que estava dentro de nós, e a quem podíamos confiar todas as nossas preocupações, desejos e sonhos. Ensinou-nos assim, a criar intimidade com Deus e um Amor muito grande a Ele. Ensinou-nos também, a lutar sempre pelos nossos sonhos e a amar os outros como Ele nos amou, desenvolveu dentro de nós, como hoje se usa dizer, uma consciência social e de solidariedade ao próximo. Ensinou-nos o valor das pequenas renúncias, por amor a Deus. Daí nos ensinar a pôr de parte, algum dinheiro que nos davam, para guloseimas e dá-lo para comprar alimentos (recordo a altura de Natal e outras ocasiões) em que, a par das visitas a certos lares, se levava também géneros alimentares, uma palavra amiga e às vezes algum dinheiro.


Caso se trate de conhecimento indirecto, indique como o veio a conhecer. Identifique as pessoas que lhe falaram dela, alguma biografia ou escritos que leu, as circunstâncias em que tal aconteceu.
O que indirectamente me chegou dela, os ecos, foram todos elogiosos. Quem a conheceu ficou tocado pela inteligência, humanidade e Amor a Deus e ao Próximo. Lembro-me de chegar a sua casa uma Velhinha, de lhe dar banho e comida. Lembro-me desta, lhe chamar a sua menina, pois encontrou nela o amor que nunca tinha tido. Esta ia todos os dias pedir esmola e pedia á minha tia para o guardar.
Esta Velhinha tinha fugido de casa, onde o filho lhe batia e ficava com as moedas do seu esmolar. Pediu então, refúgio à minha tia, a qual, lhe arranjou uma casinha e protecção. Um dia, o filho aparece e è, a minha tia, que tem de lhe fazer frente. A Velhinha, adoece gravemente, e è levada ao hospital de Palmela, onde a minha tia, tem de se impor, para a tratarem com humanidade e respeito. A enfermeira, pergunta-lhe então, se è sua mãe, e ela responde-lhe: ”não é, mas podia ser!”. Morre e é o padre Acílio Fernandes, da Casa do Gaiato, que lhe faz missa, com as cunhadas e irmãos a acompanhar, é sepultada no cemitério de Palmela. Recordo ainda, de recolher uma criança de um ano, desta, deitar uma ténia pela boca, com mais de um metro, recordo-me de ter de entregá-la e de chorar, por já não ter saúde para a criar, foi no final da sua vida.

Descreva, brevemente, algum ou alguns episódios da vida de CÁRMEN ANTUNES DE MATOS FORTUNA que, a seu ver, são mais significativos: a sua família, a educação, o relacionamento com a sociedade de então.
Lembro-me de vê-la sentada à mesa, de servir a todos, primeiro a mãe (Avó “Xica”), depois os filhos e de reparar, que para ela, quase já não tinha nada. Assim, eu compreendia, porque não gostava, que outros assistissem à repartição das refeições. Lembro-me também, de ler antes de comer, as bem-aventuranças. A minha madrinha não foi para a Universidade, porque, brilhante aluna, aos dezanove anos optou, por ser mãe e aceitou o Evaristo. Com isso, começou a trabalhar no Outão, como administrativa. A minha Tia, era uma mulher de causas, daí meter-se na política, empurrada por ideais, de bem-estar e liberdade para todos. Recordo-me, de ser convidada para deputada e de ter recusado. Recordo-me, de ir a manifestações, de fugir, de lhe quererem bater e de fazer comícios. Em tudo isto, estava uma lição: não ter medo das nossas convicções! As pessoas respeitavam-na e vinham pedir ajuda e conselhos, desde as forças locais; a médicos; engenheiros; gente humilde; foi em sua casa, que assisti, à criação da cooperativa de habitação da Quinta do Anjo. Recordo-me de pensar, que tinha uma linguagem diferente para cada um, ou mais simples ou mais erudita ,consoante os casos. Lembro-me até, de mães de família, virem pedir conselhos e algumas também, ajuda material. Recordo-me, de lhe contarem, as pessoas com necessidades locais e dela sempre, dar resposta. A recolha de sangue, em Quinta do Anjo, foi iniciativa dela, como resposta, às necessidades que assistiu que havia (aquando de um, dos seus vários internamentos), no IPO de Lisboa. Aí ,só foi operada, quando arranjou sangue, para todos os que necessitavam. Ela ,para ela tinha, pois todos os oito irmãos e respectivas cunhadas, lhe davam. No entanto, só aceitou a intervenção, quando conseguiu por mobilização sua, recolher sangue para todos. Os amigos ,parentes e conhecidos foram dar ao IPO de Lisboa e assim  nasceria, um tempo depois, a recolha de sangue ,em Quinta do Anjo. Na qual se envolveria de alma e coração, com o apoio do Tio Tóino, na parte, burocrática e de muitas e santas mulheres, na parte logística da confecção de alimentos e de arrumação da sala. As crianças e jovens apoiavam estas e aos dadores. A estes, com palavras de conforto e estímulo. No IPO, a sua personalidade singular, marcou doentes e médicos, daí assistir a visitas destes, a sua casa.
A educação da minha Tia foi exemplar, no Amor a Deus e ao Próximo. O meu Avô (José Fortuna Júnior) pai da Carmita rezava muito. O meu pai recorda-se dele, ajoelhado junto ao oratório, a rezar o terço, todos os dias. O meu avô recolhia e dava guarida a muitos pobres; fez um quarto em sua casa, para recolher e tratar moribundos. O meu pai, recorda-se, de um, com feridas expostas no rosto e que os hospitais recusavam. O meu Avô, criou, sendo pobre, para além dos seus onze filhos (só nove vivos), algumas crianças órfãs. Destas, algumas, só sairiam para casar. O seu sonho, era ter uma casinha para pobres, para terem onde ficar, quando vinham pedir guarida; os filhos mais tarde realizariam esse sonho e ainda hoje, lá viveu um, até há pouco tempo.

Virtudes da sua personalidade, humana e espiritual. Conte factos concretos.
Posso dizer que duma maneira geral a Tia Carmita tinha praticamente todas as virtudes humanas e espirituais.
Destaco algumas.
A amizade. Por exemplo, ao nível da amizade converteu um médico que a tratava no IPO que sendo ateu converteu-se pelo seu testemunho.
Audácia. Foi bem patente pelo número de filhos que foi adoptando e que a levou a responder à pergunta, “Até onde, até onde a loucura? Até ter consciência de poder dizer: “amei! Eis a meta. É do Evangelho. É para ti, amiga, e para mim. Para ti, para mim, para vós todos que me ledes e para os outros. E nada se há feito, quando não se fizer tudo para a atingir.”

Tem algo a dizer sobre a sua vida de oração, de união com Deus na vida quotidiana?
Recordo-me  que, de forma discreta a Tia Carmita, fazia  no final  de cada dia o seu Exame de Consciência,  assim como  a leitura do Evangelho, sendo a recitação do Rosário feita em família com a Mãe, os irmãos, sobrinhos , cunhados, filhos e até vizinhos  ao serão. 

A Tia Carmita recorria com grande frequência ao Sacramento da Reconciliação permanecendo muitas vezes na Igreja de Azeitão antes de voltar para casa, o que me deixava intrigada porque conhecendo eu as suas virtudes ficava sem saber quais seriam os seus pecados.
Como na Tia Carmita a finitude da vida esteve sempre presente procurava anotar em pequenos escritos as tarefas que se propunha fazer no dia que começava, normalmente às 5 horas da manhã. 

Ao sábado reunia com os sobrinhos mais velhos e meditava sobre as leituras do Domingo seguinte, como forma de prepararem melhor a missa dominical. 

Que opinião tem acerca do seu zelo pela glória de Deus e pela salvação do próximo?
A Tia Carmita foi falando de Deus de forma apropriada à idade de cada sobrinho. E falava da presença de Deus em todas as coisas chamando a atenção para as coisas pequenas: flores do campo, as serras, as estrelas, os rios, a beleza do universo.
Procurou que os sobrinhos falassem com Deus numa linguagem familiar falar com Deus como um amigo fala com um Amigo, embora no fim dessa conversa aparecesse uma oração vocal tradicional como um Pai Nosso ou uma Ave Maria.
A Tia Carmita aproveitando os convites feitos pelo Pároco da altura, Padre Correia, para comentar na Missa o Evangelho, e muitas vezes o Vigário do Patriarcado de Lisboa, D. João Alves, Bispo Auxiliar de Lisboa, e depois Bispo de Coimbra, e fazia-o com grande entusiasmo, sabedoria e inteligência que agradava a quem a escutava.
Tendo sido membro da Juventude Agrária Católica que liderou, mereceu do Cardeal Cerejeira uma deslocação à Quinta do Anjo que elogiou este lugar como “O Oásis da Península de Setúbal”.

Foi notável na sua vida o amor e serviço à Igreja?...
A Tia Carmita serviu a Igreja com o seu apostolado na JAC ao ponto de praticamente todos os jovens da Quinta do Anjo e arredores seus contemporâneos marcarem presença nas celebrações comunitárias. Sempre nos ensinou que a Igreja eram as pessoas e não o edifício e que era responsabilidade nossa a imagem que dela fizéssemos espelhar. Aquando da vinda, do Papa Paulo VI, a Fátima e quando este ia a passar, ela gritou-lhe «Homens: Sede_Homens!» e este sorriu-lhe. Para mim, a Tia Carmita viveu em pleno, o resumo de toda a Lei de Deus: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao Próximo como Ele nos Amou. E assim se deu aos seis filhos e aos outros, daí ter ido em auxilio dos açorianos, aquando do tremor de terra em Janeiro de 1980 e morreria em Maio desse ano, levando consigo o que a comunidade conseguiu angariar para esse fim reparem no seu já debilitado estado de saúde.

Acha que, da vida de CÁRMEN ANTUNES DE MATOS FORTUNA, há aspectos ou casos negativos que deva explicitar (defeitos relevantes, atitudes notoriamente impróprias, alguma história desedificante ou escandalosa)?
Nunca tive conhecimento de alguém queixar-se da Tia Carmita.

Há fama de santidade em CÁRMEN ANTUNES DE MATOS FORTUNA? 
Trata-se de simples opiniões (parece que era, ouvi dizer…) ou de algo substancial?
Tenho conhecimento de pessoas que pediram em momentos de aflição a intermediação da Tia Carmita. A minha prima Benedita, que num dia de mau tempo nos Açores apesar de vários familiares terem ido socorrê-la, sem sucesso, só após pedido de ajuda da Tia Carmita apareceu um americano que já se ia embora por pensar tratar-se dum tubarão vendo a aflição conseguiu salvá-a.
Aquando dum grande acidente que nos afectou pediu à Tia Carmita para escaparem todos sem sequelas o que aconteceu.
Tem conhecimento que a mãe duma paroquiana tem pedido pela saúde da filha acometida de doença cancerosa e a filha tem-se mantido com alguma saúde.
Os familiares da Quinta do Anjo cuidam da campa da Tia Carmita no cemitério por lhe terem devoção.  


Seria oportuno iniciar o processo em ordem à canonização de CÁRMEN ANTUNES DE MATOS FORTUNA?
Quando a Tia Carmita faleceu pessoas ligadas à hierarquia da Igreja e não só sugeriram aos familiares que devido à alma de eleição que ela foi se deveria iniciar um processo de beatificação.
Esse propósito foi de certo modo contrariado porque dada a proximidade nos laços de sangue os irmãos não seguiram essa sugestão com grande entusiasmo, não obstante o Tio Toino por mandato do 1.º Bispo de Setúbal tivesse recolhido testemunhos de vida da Carmita no opúsculo “Alguém que agarrou o Evangelho”, mais tarde publicado numa segunda edição da Paulus.

Passados os anos que a distância relativamente aos factos recomenda, a actual geração de sobrinhos, o actual Pároco, e outras pessoas da comunidade entendem que seria uma pena deixar no esquecimento o testemunho da Carmita que, por ser a todos os títulos exemplar deveria ser apresentada às novas gerações de cristãos.

Porquê?
Para que cada baptizado verifique que para ser santo basta viver a Fé com grande coerência no dia a dia.

Maria da Redenção Cardoso de Matos Fortuna.
11.08.2013