Uma Palavra
Bispo Emérito de Setúbal
Anda hoje muito em voga aquilo a que chamamos a Campanha de Defesa do Património Cultural.
E acrescente-se que todos achamos muito bem, só que já vem tarde, pois que muitos valores estarão irremediavelmente perdidos. Mas, mesmo assim, porque continua válido o ditado de que “mais vale tarde do que nunca”, ande-se em frente.
Com efeito, aquilo que se designa por Património é de todos, não deve perder-se, faz parte da alma e da história de um povo ou de uma comunidade. Isto penso eu também de algumas pessoas que, pelo que fizeram, pelo que disseram, pelo testemunho da sua vida, melhor, pelo que foram, se tornaram património de uma comunidade e património que os responsáveis não podem nem devem permitir que se perca.
É o que acontece com a nossa Carmita.
Claro que não vou apresentá-la, a ela tão conhecida e neste livro algo revelada.
Quero tão somente dizer que, como Bispo da Diocese, tive que assumir a responsabilidade de mandar passar ao papel tudo aquilo que pudesse não só ajudar a fazer o retrato desta alma de eleição, como servir-nos de exemplo e apoio na caminhada difícil que é a nossa vida.
Conheci-a, logo em 75, quando num grupo de cristãos a ouvi apresentar-se desta forma: “eu sou a Carmita, tenho 37 anos, sou solteira e tenho 6 filhos, um de cada pai”.
Um pouco escandalizado a princípio, logo a seguir caí interiormente de joelhos diante desta cristã que viveu até ao fim as exigências do Evangelho em que acreditava.
Esta vida não se pode perder, A Carmita faz parte dos “Santos” de Setúbal que não queremos esquecer, é parte valiosa de um património precioso que temos de preservar e transmitir.
Por isso, também através deste livro, composto carinhosamente (e com custo, por motivos explicados e compreensíveis) por um seu irmão, a sua vida continuará presente para estímulo de todos nós.
E no Céu, Carmita, não esqueças nunca a tua Diocese de Setúbal.
1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”
Todas as terras procuram preservar o seu património, a nível histórico, cultural, religioso, humano. E hoje, felizmente que as pessoas vão ficando cada vez mais sensíveis a esses valores, depois de período passado recente em que alguns quiseram arrumar o passado.
O mundo é memória: nós somos memória, a nossa terra é memória. A Igreja é memória. Sem memória, acontece que não sabemos quem somos.
O Santo Padre João Paulo II, quando nos ofereceu os Sinais do Jubileu, quais sacramentos que nos ajudassem a conservar e valorizar os apelos desse grande acontecimento que marcou os 2000 anos do nascimento de Jesus e o dealbar do novo milénio, incluiu logo entre os primeiros a Memória, porque, sem memória, estamos sós, (quase) não somos.
A Diocese de Setúbal, jovem de 30 anos, nasceu carregada de memória, e segue caminho, fazendo memória. Eu já sinto muita da riqueza e da responsabilidade dessa memória, memória que é feita de acontecimentos, memória que é feita de pessoas.
A vida é um rio. O hoje não pode existir e, muito menos explicar-se, sem o ontem.
Acontecimentos, pessoas. Pessoas nos acontecimentos. Eis.
Logo que me senti Setúbal – “eu nasci Bispo em Setúbal” -, chegou aos meus ouvidos o nome carregado de testemunho cristão de uma Mulher tão doente quanto valente e corajosa, que fazia da sua vida um cântico de fé e de amor.
Dotada de uma fé profunda e esclarecida, claro que tinha que manifestá-la em obras. De outro modo, como descobriríamos essa fé?
Essa Mulher, quem o não sabe em Setúbal e fora de Setúbal, era a Carmita Fortuna. De pequena estatura, muito viva, o tempo era-lhe escasso para servir a Comunidade da Quinta do Anjo e as pessoas muitas que dela se aproximavam por precisarem dos seus serviços.
Deixem-me desabafar, cortando o fio à conversa, que sempre gostei muito da gente da Quinta do Anjo. Ainda só Bispo eleito, passei por lá com o então Vigário Episcopal, Cónego João Alves, hoje Bispo Emérito de Coimbra. Contou-me que numa visita recente anunciara a vinda de um Bispo para a nova Diocese e adiantou-se a perguntar como o queriam. “Que seja como nós”, respondeu um Pedro lá da Comunidade. Este “instantâneo” nunca mais o esqueci, porque me ajudou muito a ser o Bispo daquela terra.
A Carmita já a conheci doente. Cancerosa, não diminuiu o seu trabalho apostólico e solidário. Se calhar, ainda haverá alguém pelo I.P.O. de Lisboa que teria muito que contar a seu respeito.
O tipo da sua doença marcou muito os seus comportamentos, logo a partir das colheitas de sangue na Quinta do Anjo (uma festa, quem o não lembra?), que depois se tornaram diocesanas e aconteciam no dia da Padroeira da Diocese, Senhora da Conceição (Santa Maria da Graça). Uma das minhas “vaidades” tem a ver com ser sempre dos primeiros a colaborar neste testemunho tão belo.
Todos lembramos que a Carmita sempre se apresentava lá nos nossos encontros pastorais (tenho presentes sobretudo as tão quentes Ultreias e Encerramentos dos Cursilhos), como mãe solteira, com seis filhos um de cada pai. Quando tal ouvi pela primeira vez, claro fiquei um pouco perplexo, perplexidade que se transformou em veneração, quando soube como “arranjou” esses filhos que educou tão bem, como se nascessem do seu próprio ventre. Esses filhos que se tornaram netos queridos da avó Chica e sobrinhos inteiros dos irmãos da Carmita.
A Carmita viveu até ao fim. Antes de morrer, ainda teve a graça de participar na Eucaristia que o Padre Álvaro Teixeira, então Secretário Diocesano da Pastoral celebrou no seu quarto de agonizante.
As horas que precederam o funeral e este, também foram de exultante glória a Deus pelo dom desta Mulher, glória cantada por pessoas vindas de todos os lados.
Eu senti-me responsabilizado por entregar esta Memória de Setúbal à Memória dos vindouros e, por isso, com alguns testemunhos, os traços fundamentais da sua vida. E lá apareceu, bem conseguido, o livrinho que nos apresentou uma Mulher que agarrou o Evangelho…
A Carmita “fez-se” muito nos Cursilhos e os Cursilhos querem agora refundir a sua biografia. Fazem bem. É mais um serviço que prestam à Igreja, eles que tanto contribuíram para “construir” a Igreja de Setúbal.
A Carmita foi uma prenda que Deus concedeu a Setúbal. Estou seguro que, junto de Deus, continua a interessar-se por Setúbal e, quem sabe, também por mim.
2005 — Depoimento para a 2ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”