Dr. Mário da Silva Moura

Conheci a Carmen Fortuna, a Carmita, há muitos anos, quando não era ainda membro confesso da Igreja, quando era ateu convicto, médico do velho Hospital da Misericórdia onde hoje é o Museu da Cidade.

Conheci-a quando maternalmente trazia à consulta alguns dos seus filhos adoptivos. Ao ter conhecimento da sua vida, das suas opções, compreendo hoje que foi um dos primeiros Evangelhos que li. Impressionava pela sua dedicação, pela sua amorosidade, pelo seu sacrifício por aquelas crianças que considerava como sendo verdadeiramente suas.

Depois veio a minha conversão, e um contacto mais frequente e directo com a Carmita. Compreendi então melhor toda a profundidade da sua dádiva de amor, da sua opção de vida pelos outros, por um próximo abandonado, sem auxílios, miserável, como eram sempre as crianças que adoptou.

Tomei então mais pormenorizadamente conhecimento da vida que deixara, da opção que fizera neste século de comodidade, da extraordinária dimensão do Amor que prodigalizava àqueles seus filhos, como da sua carne fossem.

Ouvi-a falar frequentes vezes e a sua mensagem de Amor, de entusiasmo, de espírito de entrega e serviço, na alegria era sempre uma chama comunicativa.

Apesar dos seus afazeres e preocupações com as doenças (tantas), a alimentação e educação desses filhos, um de cada homem, como ela dizia, chegou, no seu espírito de serviço evangelizador, a ser responsável de Cursos de Cristandade.

Era um encantamento ouvi-la falar, era comunicativo o seu entusiasmo e alegria, era comovente a sua entrega, era verdadeiro sinal de Cristo.

Depois veio a doença a culminar uma vida cheia de trabalhos e Amor, doença que ela recebeu como uma bênção do Céu, e então o seu testemunho de Amor cristão tornou-se transcendente, transfigurando-a totalmente, rodeando-a logo em vida duma áurea de santidade.

O seu apostolado junto dos doentes aquando dos seus internamentos, junto dos médicos e visitas de amigos, tornou-se proverbial – a sua presença era querida e desejada por ser terna e quente.

Já com o seu estado geral afectado, magra e macilenta, ainda a sua palavra e a sua presença se fez ouvir em encerramentos de Cursilhos de Cristandade e até junto das vítimas do terramoto dos Açores.

A Carmita era a personificação viva do Amor alegre, carinhoso, afectuoso, comunicativo.

Tenho alturas em que já rezo à Carmita pela certeza da sua santidade.

A sua vida de entrega total aos outros, a sua formação e vida de oração profundas, e até o seu compromisso temporal em actividades políticas, são o retrato de uma santa do século XX.

1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”


Comecei a trabalhar no serviço de urgência do Hospital do Espírito Santo em 1953.

Atendia a qualquer hora as muitas pessoas que necessitavam de assistência para si ou para familiares, de noite ou de dia.

Uma ou duas vezes atendi a uma jovem mãe com um qualquer problema num filho que trazia ao colo, mas despertou-me a atenção que das duas vezes a criança não era a mesma.

Muito atento aos problemas de relacionamento com os pacientes e à sua maneira de actuar, verifiquei que aquela mãe era duma ternura extrema para com os seus filhos apesar da sua franzina juventude.

O tempo ia passando e esta presença repetiu-se mais algumas vezes pelo que resolvi indagar de quem se tratava.

Disseram-me então, para meu espanto, que era uma menina da Quinta do Anjo que deixara a sua própria profissão para acolher crianças abandonadas ou filhas de pais sem condições para as criar (prostitutas, alcoólicos, etc.).

Eu era ateu nessa altura e estava muito atento a actos de caridade que me apareciam no meu dia a dia – a bondade e o amor eram para mim algo de muito importante e tocavam-me no coração de maneira especial.

Estas presenças da Carmem Fortuna no banco do hospital foram alguns dos factos que mais contribuíram para vencer os meus problemas com Deus.

Assim comecei a ouvir falar e a conhecer a Carmita, como era conhecida, impressionado com a sua capacidade de entrega aos outros e mais impressionado ainda com toda a sua história de vida e a amorosidade que irradiava.

Fui também sabendo que pertencia a uma família de excepcionais características de preocupação com os outros e de vida cristã irrepreensível.

Ao fim de alguns anos com o acumular de testemunhos com este e após um Curso de Cristandade, acabei mesmo por aceitar que Deus residia nos nossos corações e que Jesus Cristo fora a Sua encarnação e continuava connosco.

E eram exemplos como o da Carmem Fortuna que davam corpo a esta verdade.

E de novo vim a contactar, agora com mais assiduidade e com outros olhos, com a Carmita que também acabou por frequentar um Cursilho na sua ânsia de entrega aos outros, vindo a ser Reitora de cursos. Relembro como se apresentava nas reuniões como “mãe solteira, com seis filhos, um de cada pai!”, deixando toda a gente atónita até entender o que esta apresentação continha de substância caritativa e de presença do Deus vivo!

Recordo também como encarou uma doença grave que a atingiu, como impressionava as pessoas com a sua aceitação do sofrimento (a sua Cruz!) e como animava as pessoas com quem convivia, até nos tempos do seu internamento hospitalar onde a sua acção apostólica ficou notabilizada – um testemunho exemplar, digno duma verdadeira santa!

A todos os que com ela conviviam era contagiante esta ternura, este espírito de entrega, esta alegria de viver, esta aceitação do sofrimento em oblação de si própria pelo bem dos outros, neste mundo tão cheio de miséria e de egoísmo.

Até aos seus últimos momentos, com sofrimento, se manteve fiel à sua Fé e à sua doação – o velório do seu corpo e o seu funeral foram verdadeiras homenagens a ela e ao Deus que a animava e sempre lhe orientou os seus passos. Foi uma manifestação de Fé extraordinária que impressionou e comoveu todos os que participaram em tal cerimónia fúnebre, cheia de cânticos, de alegria, ao som da leitura de versos escritos pela Carmita.

Um ambiente daqueles só foi possível porque o Espírito Santo pairava sobre aquela verdadeira santa.

Tomei depois conhecimento mais pormenorizado sobre a sua forma de vida e sobre a sua maneira de ser através dum livro escrito por um dos seus irmãos.

Mas o que escrevi acima é que é o meu verdadeiro testemunho, saído do meu coração, sobre a Carmita.

Entendo que já se devia ter tomado a iniciativa de abrir um processo de beatificação de Carmem de Matos Fortuna – a nossa Igreja necessita de santos verdadeiros que deram sempre testemunho do Amor aos outros em todas as circunstâncias da vida, indo como Cristo até à entrega da própria vida.

2013 — Setembro

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