Eng.º Victor M. Chagas dos Santos

Amávamo-nos muito, a Carmita e eu, ou melhor, exprimindo-me em termos mais correctos e mais consentâneos com a minha Fé, amamo-nos muito.

E afirmo “amamo-nos muito” porque creio, com toda a força das coisas irrefutáveis e evidentes, que a Carmita continua hoje viva no Céu, na comunhão do Pai, do Filho e de todos os Santos.

Amamo-nos muito porque as nossas vidas foram marcadas por determinadas características de sofrimento físico e de vivência espiritual que nos aproximaram estreitamente e nos irmanaram com os laços indestrutíveis de Filhos do mesmo Deus e irmãos do mesmo Cristo.

Amamo-nos muito porque sempre a vi à minha frente, a iluminar-me a caminhada nova que iniciei há quase vinte anos, caminhada que só findará quando Deus, na sua infinita misericórdia, me acolher naquele amplo paternal, em que participa a Carmita, que porá fim à minha Fé e à minha Esperança, mas que levará a dimensões infinitas o meu Amor. Aquele Amor que eu, hoje, não consigo retribuir senão em miseráveis arremedos daquele Amor infinito que Ele me dedica desde todo o sempre; aquele Amor que transborda em lampejos fulgurantes da vida da Carmita e que eu tão mal retribuí; aquele Amor que, como selo, indelével, marcou a vida da Carmita, selo da Graça de Deus, da intimidade da vida de Amor com Deus, através da intimidade de vida de Amor com Cristo e com os Irmãos.

Todos os que conhecemos a Carmita fomos testemunhas da santidade desbordante da sua vida e será, portanto, pretensioso da minha parte tentar esboçar, ainda que a traços grosseiros, a história da vida da Carmita. Só posso extasiar-me perante o seu exemplo heróico e debater-me perante a dificuldade em encontrar, entre as palavras dos homens, aquelas palavras que ultrapassem a dimensão do lugar-comum e que se ajustem, com fidelidade, ao concreto programa da vida da Carmita, programa de vida que cumpriu até à exaustão, programa de vida que o próprio Cristo instituiu ao dizer-nos “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, programa de vida que Ele tanto amou e pelo qual deu a própria vida.

Enquanto, aqui e ali, agora e sempre, se defende o direito ao assassínio de crianças indefesas no seio de suas mães, como um direito inerente à liberdade de mulher, a Carmita teve um conceito totalmente diferente de liberdade e constituiu uma família, uma autêntica família, aceitando e tomando aos seus cuidados de verdadeira Mãe todas as crianças que Deus lhe destinou e pelas quais ela empenhou a vida, ainda que a custo de muitos sacrifícios.

E não interessou à Carmita que estas crianças correspondessem ou não ao ideal que a maioria das mães alimentam para os seus filhos; bebés rosados, rechonchudos e de olhos azuis, verdes, castanhos ou de outra qualquer cor. Bastou-lhe que fossem Filhos de Deus e que outros não os quisessem.

E essas crianças cresceram num verdadeiro lar cristão, formaram uma verdadeira família feliz, em torno dessa Mãe exemplar, que não o era no sentido restrito da concepção física, mas que plenamente o era no sentido mais amplo e mais belo do carinho, da ternura, da abnegação, da renúncia, do Amor, encarnação do Amor de Cristo concretizado nos homens e ao serviço dos homens.

E, quando a vida da Carmita se converteu num calvário de dor e de sofrimento, sempre continuou a reparti-la por todos os que dela precisavam e que tantos eram.

Quanto mais sofria, mais o potencial de santidade da Carmita explodia em esplendores de Graça e de Amor.

Desdobrava e multiplicava as suas energias esgotadas em prodígios de apostolado, de desvelos, de atenções, de cuidados, por todos os que sofriam, principalmente os doentes e os moribundos. Converteu-se no anjo da guarda de tantos infelizes que vacilavam entre o desespero e a Esperança, entre a Vida e a Morte, para os quais ela concretizou a alegria que o Senhor prometeu a todos que tomarem a sua cruz e O seguirem.

Os anos foram passando e a Carmita foi definhando em saúde e crescendo em santidade.

Em Abril de 1980, estive na Buraca, a participar em mais um Cursilho de Cristandade, que a Carmita e eu tanto amamos, e como sempre, a Carmita esteve comigo, esteve com todo o Cursilho, presente pela oração e pelo sacrifício, que são a chave para a Graça de Deus que se derrama abundantemente sobre todos os Cursilhos. E esse Cursilho constituiu uma autêntica Comunhão dos Santos: o Cursilho inteiro orou pela Carmita e a Carmita fez violência ao Céu, oferecendo a sua vida pelo êxito apostólico do Cursilho, oferecendo a sua vida para que os homens que ali estavam se encontrassem com o Senhor Jesus Cristo, com a Sua Graça e com o Seu Amor.

E no dia do encerramento do Cursilho, a Carmita, que já quase não tinha forças para erguer-se do leito, recorreu às fontes inesgotáveis do seu Amor, e foi ao nosso encontro, abraçar-me a mim e abraçar aqueles homens que, em grande parte, devido ao seu sacrifício, tinham encontrado um novo Caminho, uma nova Verdade e uma nova Vida. Foi um encontro de extraordinária vibração, de extraordinária elevação, de extraordinário Amor.

Alguns dias depois, no dia 14 de Maio, um dos sacerdotes que tinha participado naquele Cursilho e que tinha ficado espiritualmente ligado a ela, como todos nós, foi a sua casa para lhe fazer companhia e, vendo-a, prontificou-se a celebrar a Eucaristia no seu quarto e a dar-lhe a comunhão. Assim, celebrou missa num altar improvisado aos pés da cama da Carmita.

Na altura do Ofertório, depois de o Sacerdote erguer os olhos ao Céu, para oferecer a Deus os bens terrenos do pão e do vinho e orar para que o sacrifício de todos os presentes fosse aceite por Deus Pai Todo Poderoso, ao baixar de novo os olhos, para os pousar na Carmita, verificou que ela tinha acabado de expirar naquele preciso momento.

A Carmita tinha oferecido a sua vida ao Senhor em holocausto de santidade.

A Carmita culminara a dádiva constante da sua vida, entregando-a a Deus no Ofertório daquela Eucaristia, iniciando assim a Eucaristia permanente que é a morte; Eucaristia sem fim, que é a comunhão de Cristo para sempre.

Já vai, certamente, longa demais esta insuficiente nota sobre a Carmita e a sua vida de santidade, mas não posso nem quero terminá-la sem algumas palavras, difíceis porque comovidas, sobre o que foi a nossa despedida da Carmita, neste mundo.

Tal como não posso esquecê-la, não posso esquecer também o que foi a vigília de oração, durante a noite, perante o corpo que tinha sido da Carmita, e não se entenda, aqui, oração como simples acto de rezar, pronunciando e repetindo palavras com os lábios, mas como autêntica vivência de testemunho comunitário de Amor a Deus e à Carmita. Cantou-se, rezou-se, deram-se testemunhos entusiásticos de fervor cristão, leram-se poemas e escritos vários da Carmita, enfim, viveu-se em Amor.

E o último adeus, o funeral, foi a maior manifestação de Amor comunitário em que já participei. Muitas centenas de pessoas transformaram o funeral da Carmita numa autêntica glorificação, não da pessoa, não da matéria, mas de Deus e do Seu Espírito, presentes no mais íntimo da vida da Carmita, na sua alma de eleição.

E todos nós, todos os amigos da Carmita que, comovidos, participámos nesta manifestação, ficámos convictos de que, a partir de então, contávamos no Céu com mais uma santa a invocar, mais uma santa que, no termo da vida que Deus lhe destinara, tinha por fim encontrado Aquele que é tudo, tinha alcançado a beleza transcendente que há no âmago da Vida, tinha atingido a Luz irremorredoura, sem ocaso, que brilha no centro do Universo.

Fôra para isso que Deus a colocara no Mundo!

1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”

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