D. Gilberto Canavarro dos Reis

Não conheci a Carmita Fortuna na sua vida terrena, com a sua família, na linda povoação da Quinta do Anjo. Quando cheguei a Setúbal, há muito que ela tinha partido para o Pai. E, no entanto, posso dizer que a conheço.

Conheço nela uma mulher que, desde a sua juventude, viveu apaixonadamente o Evangelho e sempre fez questão de o pôr em prática, sem se demorar em considerações e hesitações.

Conheço nela uma cristã que amou Jesus Cristo e a Igreja a ponto de se entregar totalmente ao serviço de ambos, especialmente, como manda o Evangelho, nos irmãos mais pobres.

Conheço nela uma mulher de uma bondade imensa que viveu a sua maternidade adoptando como seus os filhos de outras mulheres que não queriam ou não podiam ser verdadeiramente mães e que o fez sempre de sorriso nos lábios e no coração, transbordando de alegria.

Conheço nela uma mulher de fé provada pela doença e pelo sofrimento, que fez das suas dores outras pontes para se aproximar e ajudar os que encontrava na via dolorosa dos hospitais por onde peregrinou.

E como a conheço?

Conheço-a porque a sua vida foi de tal modo fecunda que o seu testemunho não pode ser calado, nem terminou com a sua morte terrena; porque sempre ouvi e continuo a ouvir ecos da sua vida, dos seus actos, da sua fé, da sua santidade.

Conheço a Carmita do mesmo modo como conhecemos os santos, canonizados ou não: pela memória feliz que deixam da sua vida, pelo bom odor da santidade que acolheram e fizeram frutificar, pelo testemunho de fé que nos deixaram – um testemunho que perdura para além do tempo e da morte.

É consolador e estimulante para uma Igreja diocesana a existência de exemplos de santidade tão próximos de nós, tão inseridos no nosso quotidiano. Quem nos dera – quem me dera a mim, Bispo de Setúbal – que estes exemplos se multiplicassem e nos ajudassem a ser mais coerentes, e mais fortes e corajosos, mais simples e felizes na vivência da fé e da caridade, no testemunho do Evangelho.

Que o exemplo da Carmita – agora felizmente relembrado com a 2ª edição do livro que a evoca – frutifique e deixe em todos o gosto pela santidade. Numa cultura que parece cada vez mais marcada pelo individualismo e pelo materialismo, é oportuno proclamar o Evangelho de Jesus, o Evangelho das bem-aventuranças, o Amor radical a Deus e ao próximo.

Depoimento para a 2.ª edição do livro «alguém que ‘agarrou’ o EVANGELHO», 2005

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