José Maria Fernandes Rodrigues

Não há palavras nossas para falar da Carmita.

Estar de joelhos no dia-a-dia e no serviço do amor é que diz, é que corresponde ao falar-se e ao testemunhar-se a vivência que nos ficou desse Anjo da Caridade e da Transparência do Céu.

Tudo nela, era Cristo. O seu ofício, na terra, foi autêntica instauração da Esperança, proclamação do Reino!

Conheci esta imperecível jovem num momento de provação para ela. Foi quando sua mãe, uma das suas Raízes de Verdades, deu entrada na Estância Sanatorial do Caramulo. Aí, no amor do Crucificado, nos encontrámos para sempre.

Para sempre e digo bem, pois o seu sorriso, a sua simplicidade, a sua alegria, a sua bondade, atributos duma espiritualidade profunda que a todos tocava e transformava, impressionaram-me de forma muito evidente, entretecendo um Abraço-Carmita que jamais terminará.

A partir daquela comunhão no Calvário, todos os meus caminhos se cruzaram com esse sorriso e, dele, obtiveram sol para a minha demanda.

A nossa união processava-se através da Cruz.

E eu só, agora, verifico quão real foi a sua presença e a sua companhia junto de mim.

A sua Esperança, a sua Bondade, a sua Entrega!

E a dor?

A dor, nela, não foi uma enfermidade. Nunca desperdiçou lágrimas, não perdeu tempo com resignações e sentimentalismos. Aceitação da Vontade de Deus no terreno da Luta, do Sofrimento e de um Querer Forte, sempre para Mais-Além. Essa foi, na passagem por este “vale de lágrimas”, a nossa Carmita.

A última vez que nos vimos, marcou-me muito no lugar dos cravos.

Foi no Museu do Automóvel, a uma Sexta-Feira da Paixão. Já tinha a sentença clínica em cima. Falámos da Dor, como não poderia deixar de ser entre dois familiares dos mistérios dolorosos.

A Carmita morreu com este crucifixo nas mãos

E ela, com aquele inolvidável sorriso, disse-me, palavra por palavra: ZÉ MARIA, SÓ A CRUZ É IMPORTANTE PARA NÓS!

Este foi o seu último passeio para fora dos seus domínios. Veio trazer-me a água pura da sua esperança e da sua entrega, precisamente naquela Sexta-Feira Santa. E matar a minha sede, esta sede que ainda tem tanto barro…

Depois, foi a sua subida para o Pai. E eu, seu irmão tão pobrezito, mas íntimo pelo lado do Amor/Dor, dei pela sua chegada ao Céu. Posso testemunhar que, a partir da assunção (as suas acções boas foram os anjos que as levaram, que a apresentaram), recobrei forças espirituais e até físicas para novas caminhadas.

Sempre que é preciso atravessar nevoeiros sociais – e não têm sido poucos – e os mil desertos de mim mesmo, das minhas teimosias e das minhas fomes dou pela presença de Amor que me vem da querida Carmita, escutando aquela voz transparente e de perfeita alegria:

“ZÉ MARIA, SÓ A CRUZ É IMPORTANTE PARA NÓS!”

Portanto, essa alma de eleição, que já, aqui, na terra das dores, não faz outra coisa que trabalhar a Esperança, que empenhar-se na construção do Reino da Justiça, da Paz, da Felicidade, como Jesus Cristo, está VIVA e no meio de nós.

ALELUIA.

1983 — Depoimento para a 1.ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”

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