Pe. Álvaro de Magalhães Teixeira

Director Diocesano dos Cursilhos de Cristandade (à altura da sua morte)

Pároco de São Sebastião (2013)

Havia já muito tempo que desejava fazer-lhe uma visita, no seu leito de sofrimento. Embora não tivesse tido uma intimidade muito profunda com a Carmita, visto a ter conhecido tão somente nalgumas reuniões de Ultreia e, ultimamente, no Encerramento dum Curso de Cristandade, aonde se deslocara com imenso sacrifício, eu admirava-a imenso. Na verdade, nunca mais esquecerei um testemunho seu, numa dessas Ultreias, em que ela tinha partilhado, com toda a simplicidade, a sua aceitação total, em relação àquela doença fatal que o Senhor lhe quisera enviar.

Além disso, também me não era desconhecida a sua obra de mãe desvelada de um bom punhado de crianças que não gerara fisicamente, mas a quem votara toda a sua vida.

Precisamente naquela manhã de quarta-feira, naquele inolvidável catorze de Maio de oitenta, depois de ter atendido uma pessoa que solicitara os meus préstimos sacerdotais, verifiquei faltarem ainda cerca de duas horas para o almoço. Lembrei-me, então, que seria ocasião propícia de dar um salto à Quinta do Anjo, a fim de satisfazer esse meu longo propósito.

Chegado ali, por volta das onze e meia, encontrei toda a família e vasta roda de amigos junto do leito da Carmita, na expectativa da sua última hora. Com a respiração apoiada por oxigénio, já não falava e entrara em coma profundo. Os irmãos preparavam-se para rezarem o Terço, numa sala contígua, tendo-me convidado para os acompanhar. Contudo foi sugerida a ideia da recitação do Ofício da Agonia. No entanto, momentos depois, um dos seus irmãos achou mais oportuna a celebração da Eucaristia; concordei.

Posso hoje afirmar que, após quase dezasseis anos de sacerdote, foi aquela a missa a que mais profundamente me marcou e da qual conservo hoje uma das minhas experiências espirituais mais indeléveis.

Se bem recordo, a primeira leitura foi tirada de S. Tiago (5, 12-14) e a segunda da oração sacerdotal de Cristo, em S. João. A homilia foi breve e condizente com os momentos que se viviam. Na Oração dos Fiéis, a Carmita foi recordada, numa súplica de saúde para a sua alma e para o seu corpo cansado.

Quando elevei o pão e o vinho, ao Ofertório, apercebi-me de que a doente ainda respirava, mas, quando comecei a oração “Orai, irmãos…”, tive a nítida sensação de que ela já tinha sido chamada pelo Senhor, do que me certifiquei, durante o “Santo”, numa troca de olhares com a sua cunhada, a única pessoa que se encontrava dentro do quarto.

No Momento dos Defuntos, com a voz embargada, ao mesmo tempo que encomendava já a sua alma ao Senhor, dava a notícia de seu passamento a todos os que viviam essa Eucaristia postados atrás de mim, familiares e amigos.

Aquele a Quem ela consagrara a sua vida, em plena juventude, numa atitude de sacrifício contínuo de doação e de amor oblativo e dedicado, dignara-se vir buscá-la durante o Ofertório da sua última Missa. O hino de louvor do prefácio já o pôde cantar com os Bem-Aventurados, na Glória Eterna e, quando o Senhor entrou no coração dos seus fiéis, à Comunhão, já ela os contemplava sorridente, com a sua peregrinação terrena cumprida.

A viagem de regresso a Setúbal, sozinho, sobre a velha Vespa 125 revestiu-se, para mim, das características duma longa recolecção, muito embora não tivesse ultrapassado o curto espaço dum quarto de hora.

Uma pergunta inconsciente me absorvia e interrogava todo o meu ser: “Porquê eu?” “Não havia tantos sacerdotes muito mais próximos da vida e dos segredos da Carmita?” “Que mensagem pretendia transmitir-me o Senhor, com a concessão desta graça?”

A resposta não se me afigurava clara. No entanto, essa série de interrogações, dois anos passados, ainda me percorre o espírito e me faz agradecer ao Senhor aquela visita à Quinta do Anjo, no momento em que a Carmita deveria pernunciar o seu “Tudo está consumado”.

E foram estes mesmos sentimentos que pretendi partilhar, à noite, na Igreja, no regresso de uma reunião do Secretariado de Catequese, realizada no Montijo com o templo repleto de fiéis que cantavam as maravilhas do Omnipotente, operadas nesta alma simples e “pobre”.

Daí que tenha recebido com muita alegria o convite dos seus irmãos para celebrar a missa de trigésimo dia e de aniversário, assim como o dia em que ela perfaria 42 anos de existência.

(…)

Toda esta vivência e o mistério que por ela perpassa me faz cantar, com Maria:

“A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador (…) porque me fez grandes coisas o Omnipotente” (Lc 1. 46-49).

1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”

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