Dr. Miguel Freire da Cruz

A recepção em plena Páscoa duma carta dum irmão da Carmita fez-me julgar, que estava recebendo de novo uma visita desta amiga, que vinha de longe (atravessava o Tejo para visitar um irmão, que morava aqui próximo, e o médico, que passara a merecer-lhe confiança).

Esta visita quase tão irreal, como algumas outras me pareceram, efectuada após uma ausência de quase dois anos, prolongou-se mais, pois já não havia necessidade de regressar à outra banda.

Durante dias preencheu-me um vazio e fez-me reavivar a memória de factos passados e uma saudade, que se tem vindo a avolumar.

No curso dum largo convívio de cerca de 20 anos, houve múltiplos encontros, que se repetiram periodicamente duma forma inesperada.

Vou procurar dar o meu testemunho, como me foi solicitado, destas recordações ainda tão vivas desse convívio inesquecível: mas dá-lo-ei não só com muito entusiasmo, mas também com a mesma simplicidade, com que dessa alma de eleição recebi variadas lições dum grande amor por Deus e pelo próximo, que a minha impreparação espiritual de início não me permitiu dar conta na sua plena dimensão.

Todo entregue por essa altura à minha carreira médica mal podia pressentir ao prestar assistência a uma jovem — chamada Carmen Fortuna — operada ao bócio no Instituto de Oncologia, que estava lançando a semente duma amizade, que com o decorrer dos anos se foi fortalecendo.

A Carmita apresentava-se sempre muito naturalmente, pois das inúmeras vezes que assinalei a sua presença discreta na minha sala de espera, como nunca foi capaz de alegar sequer o pretexto fácil de vir de longe, sujeitou-se várias vezes com paciência a qualquer demora para a consulta.

Para essas consultas trazia umas vezes uma preocupação com a sua frágil saúde, outras vezes um problema dum dos seus filhos — por causa dum acidente dum deles foi procurar-me certa vez ao Banco de S. José.

Todavia muitas vezes a consulta prolongou-se numa viva troca de impressões sobre muitas facetas da vida social, como recentemente a respeito de política, o que me deu ocasião para admirar a sua tolerância (desta forma chegámos a certa altura ao acordo de deixar de considerar como consultas estas visitas).

Ficou-me depois delas por vezes matéria para reflexão pelo tempo fora, e assim de princípio pareceu-me estranha e de contornos tão pouco precisos a missão generosa, a que a Carmita se devotara integralmente. Durante as nossas conversas fui, a pouco e pouco, obtendo pormenores desse plano magnânimo, e ao aperceber-me completamente da sua grandiosidade cresceu muito a minha admiração. Com efeito conhecia-lhe a aparente fragilidade física e a raridade com que se dispunha a criar espaço para os seus lazeres.

Foi assim sobretudo quando fui a um Curso de Cristandade e me senti consciencializado na minha vivência cristã, que reconheci a altitude espiritual da sua alma, desde sempre toda entregue a Cristo.

Aquando da sua visita seguinte aproveitei para lhe anunciar alegremente a minha descoberta, ao que ela me revelou então, que já se tinha apercebido da minha mudança; a partir daí, naturalmente a nossa amizade subiu em flecha e transbordou — pois passaram a participar da mesma a minha mulher, a minha filha mais velha e até alguns amigos nossos: conseguimos, animados duma mesma fé, trazer os cursistas de Palmela a uma ultreia da Amadora, que frequentávamos, o que constituiu uma reunião admirável.

Eu e os meus familiares passámos a partilhar em festividades da Quinta do Anjo, quer da família Fortuna, quer da comunidade local, como têm sido as colheitas de sangue, que aí têm sido realizadas pelo Instituto (a última das quais em Dezembro passado), tomando na generalidade carácter de festas de fraternidade cristã. Este admirável movimento de solidariedade humana, como todos estão recordados, foi iniciado pela Carmita aquando da sua 2ª operação no Instituto.

Tive nessa altura ocasião de presenciar a maneira como partilhava das angústias das suas companheiras de enfermaria, animando-as com palavras de esperança, muitas vezes esquecendo as suas próprias dores.

Num intervalo de 8 anos recebi novas visitas da Carmita no Instituto, onde aparecia de forma inesperada, para fazer as suas revisões de saúde, e duma vez recordo-me que ia caminhando despreocupado e a ler através do jardim do Instituto, quando, ao levantar os olhos, deparei com a Carmita sentada num banco.

Ao voltar a ser internada por agravamento do seu estado, portanto durante a última estadia no Instituto de Oncologia, nos poucos momentos em que o seu estado desesperado o permitia, lá estava ela dando a uma companheira uma palavra de alento: todavia mesmo quando o seu alento se dava por vencido não lhe ouvi queixumes, denotando uma resignação sobrenatural.

Não posso esquecer ainda, a seguir à sua morte santa, a velada invulgar a que assisti na igreja local, e que mais me pareceu uma festa.

Depois da sua partida para o Senhor, as nossas visitas à família Fortuna têm prolongado esta amizade e a nossa participação nas colheitas de sangue na Quinta do Anjo têm continuado, sentindo-se sempre entre nós que o espírito da Carmita paira em tudo suavemente.

Chegou ao fim esta imaginária visita da Carmita aos recantos da memória do amigo certo, e espero querida amiga que as tuas visitas se voltem assim a repetir, para eu sentir que, do teu assento lá no Céu, desces ainda discretamente a apoiar-me em nome da nossa imperecível amizade na difícil caminhada terrena.

Ao terminar, levantando os olhos da secretária, vejo o retrato da Carmita, (que sua mãe me deu depois que ela nos deixou), saindo do gabinete, deparo com um quadro pintado por um dos irmãos, porém, no final desta revisão do nosso convívio a recordação mais viva é a que guardo no meu espírito, o perfil da Carmita, que por graça de Deus conheci: franzina de corpo, natural no contacto, com um ânimo forte e de uma alma muito bem formada — cristã do melhor (pertencendo a uma família maravilhosa, em que todavia se destacou), profundamente humana e tolerante, criadora de obras elevadas e amizades profundas, para este retrato olharei muitas vezes como para um espelho procurando ver o meu perfil mais ajustado a essa imagem ideal.

1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”

(Com Avenida de seu nome em Águeda — Cacém — Av. Doutor Miguel Freire da Cruz)

Dr. Miguel Freire da Cruz

Médico do Instituto Português de Oncologia

A recepção em plena Páscoa duma carta dum irmão da Carmita fez-me julgar, que estava recebendo de novo uma visita desta amiga, que vinha de longe (atravessava o Tejo para visitar um irmão, que morava aqui próximo, e o médico, que passara a merecer-lhe confiança).

Esta visita quase tão irreal, como algumas outras me pareceram, efectuada após uma ausência de quase dois anos, prolongou-se mais, pois já não havia necessidade de regressar à outra banda.

Durante dias preencheu-me um vazio e fez-me reavivar a memória de factos passados e uma saudade, que se tem vindo a avolumar.

No curso dum largo convívio de cerca de 20 anos, houve múltiplos encontros, que se repetiram periodicamente duma forma inesperada.

Vou procurar dar o meu testemunho, como me foi solicitado, destas recordações ainda tão vivas desse convívio inesquecível: mas dá-lo-ei não só com muito entusiasmo, mas também com a mesma simplicidade, com que dessa alma de eleição recebi variadas lições dum grande amor por Deus e pelo próximo, que a minha impreparação espiritual de início não me permitiu dar conta na sua plena dimensão.

Todo entregue por essa altura à minha carreira médica mal podia pressentir ao prestar assistência a uma jovem — chamada Carmen Fortuna — operada ao bócio no Instituto de Oncologia, que estava lançando a semente duma amizade, que com o decorrer dos anos se foi fortalecendo.

A Carmita apresentava-se sempre muito naturalmente, pois das inúmeras vezes que assinalei a sua presença discreta na minha sala de espera, como nunca foi capaz de alegar sequer o pretexto fácil de vir de longe, sujeitou-se várias vezes com paciência a qualquer demora para a consulta.

Para essas consultas trazia umas vezes uma preocupação com a sua frágil saúde, outras vezes um problema dum dos seus filhos — por causa dum acidente dum deles foi procurar-me certa vez ao Banco de S. José.

Todavia muitas vezes a consulta prolongou-se numa viva troca de impressões sobre muitas facetas da vida social, como recentemente a respeito de política, o que me deu ocasião para admirar a sua tolerância (desta forma chegámos a certa altura ao acordo de deixar de considerar como consultas estas visitas).

Ficou-me depois delas por vezes matéria para reflexão pelo tempo fora, e assim de princípio pareceu-me estranha e de contornos tão pouco precisos a missão generosa, a que a Carmita se devotara integralmente. Durante as nossas conversas fui, a pouco e pouco, obtendo pormenores desse plano magnânimo, e ao aperceber-me completamente da sua grandiosidade cresceu muito a minha admiração. Com efeito conhecia-lhe a aparente fragilidade física e a raridade com que se dispunha a criar espaço para os seus lazeres.

Foi assim sobretudo quando fui a um Curso de Cristandade e me senti consciencializado na minha vivência cristã, que reconheci a altitude espiritual da sua alma, desde sempre toda entregue a Cristo.

Aquando da sua visita seguinte aproveitei para lhe anunciar alegremente a minha descoberta, ao que ela me revelou então, que já se tinha apercebido da minha mudança; a partir daí, naturalmente a nossa amizade subiu em flecha e transbordou — pois passaram a participar da mesma a minha mulher, a minha filha mais velha e até alguns amigos nossos: conseguimos, animados duma mesma fé, trazer os cursistas de Palmela a uma ultreia da Amadora, que frequentávamos, o que constituiu uma reunião admirável.

Eu e os meus familiares passámos a partilhar em festividades da Quinta do Anjo, quer da família Fortuna, quer da comunidade local, como têm sido as colheitas de sangue, que aí têm sido realizadas pelo Instituto (a última das quais em Dezembro passado), tomando na generalidade carácter de festas de fraternidade cristã. Este admirável movimento de solidariedade humana, como todos estão recordados, foi iniciado pela Carmita aquando da sua 2ª operação no Instituto.

Tive nessa altura ocasião de presenciar a maneira como partilhava das angústias das suas companheiras de enfermaria, animando-as com palavras de esperança, muitas vezes esquecendo as suas próprias dores.

Num intervalo de 8 anos recebi novas visitas da Carmita no Instituto, onde aparecia de forma inesperada, para fazer as suas revisões de saúde, e duma vez recordo-me que ia caminhando despreocupado e a ler através do jardim do Instituto, quando, ao levantar os olhos, deparei com a Carmita sentada num banco.

Ao voltar a ser internada por agravamento do seu estado, portanto durante a última estadia no Instituto de Oncologia, nos poucos momentos em que o seu estado desesperado o permitia, lá estava ela dando a uma companheira uma palavra de alento: todavia mesmo quando o seu alento se dava por vencido não lhe ouvi queixumes, denotando uma resignação sobrenatural.

Não posso esquecer ainda, a seguir à sua morte santa, a velada invulgar a que assisti na igreja local, e que mais me pareceu uma festa.

Depois da sua partida para o Senhor, as nossas visitas à família Fortuna têm prolongado esta amizade e a nossa participação nas colheitas de sangue na Quinta do Anjo têm continuado, sentindo-se sempre entre nós que o espírito da Carmita paira em tudo suavemente.

Chegou ao fim esta imaginária visita da Carmita aos recantos da memória do amigo certo, e espero querida amiga que as tuas visitas se voltem assim a repetir, para eu sentir que, do teu assento lá no Céu, desces ainda discretamente a apoiar-me em nome da nossa imperecível amizade na difícil caminhada terrena.

Ao terminar, levantando os olhos da secretária, vejo o retrato da Carmita, (que sua mãe me deu depois que ela nos deixou), saindo do gabinete, deparo com um quadro pintado por um dos irmãos, porém, no final desta revisão do nosso convívio a recordação mais viva é a que guardo no meu espírito, o perfil da Carmita, que por graça de Deus conheci: franzina de corpo, natural no contacto, com um ânimo forte e de uma alma muito bem formada — cristã do melhor (pertencendo a uma família maravilhosa, em que todavia se destacou), profundamente humana e tolerante, criadora de obras elevadas e amizades profundas, para este retrato olharei muitas vezes como para um espelho procurando ver o meu perfil mais ajustado a essa imagem ideal.

1983 — Depoimento para a 1ª edição do livro “alguém que «agarrou» o EVANGELHO”

(Com Avenida de seu nome em Águeda — Cacém — Av. Doutor Miguel Freire da Cruz)

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